São cinco e quarenta. A janela está aberta, ainda escuro, e o ar de maio entra carregado da água que caiu durante a noite. Belo Horizonte se acorda sempre por etapas — primeiro os carros do entregador, depois os passos do vizinho que trabalha em hospital, e só por último a luz, que demora a chegar nessa época do ano. Eu prefiro essa ordem. A luz é a última a saber.
Faço o café no fogão, devagar, da forma que aprendi quando ainda não sabia que estava aprendendo nada — em coador de pano, com água quente derramada em círculo concêntrico. O som da chaleira, o som da xícara, o som do papel do livro que está aberto na mesa. São barulhos magros, mas são exatamente esses que ainda existem antes do mundo começar.
Comecei este caderno porque percebi, com algum atraso, que estava deixando de registrar o que importa. Os anos passam, e o que sobra de um ano são exatamente as notas, fotografias e desenhos que a gente teve a coragem de salvar — as outras horas evaporam como se nunca tivessem acontecido.
Dois ofícios na mesma mesa
Passei a maior parte da última década treinando outras pessoas — corrigindo postura, contando repetição, ensinando alguém a confiar no próprio corpo. Aprendi um ofício que existe no presente puro: o exercício acontece agora ou não acontece. Não há registro, não há rascunho.
Agora, do outro lado da mesma sala, estou aprendendo um ofício que é o oposto desse: escrever software, desenhar sistemas, dar conta de domínios pequenos com cuidado integral.
São dois ofícios que parecem se contradizer, mas no fundo pedem a mesma virtude: prestar atenção sem prometer demais.
É isso que entreMultiversos quer ser. Um lugar onde os dois se sentam à mesa, dividem o café, e conversam baixo enquanto a cidade ainda não acorda.
Não precisa engajar, não precisa comentar, não precisa voltar. Só leia, se quiser. Há um café no fogão.